“Cartas entre amigos” (Pe. Fabio de Melo) – Frases de Livros

Livro com uma proposta bem interessante: cartas trocadas entre amigos. Pe. Fabio de Melo e Gabriel Chalita.

Achei as melhores frases que anotei numa época pré-Kindle, há mais de dez anos, ou seja, digitando tudo. Gosto muito desse livro! Seguem:

-A dor é um território santo

-Carlos Drummond de Andrade: “Antes de escrever os poemas é preciso conviver com eles”

-Antes do nascer da palavra há sempre um sabor de silêncio que precisa ser sorvido

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-Há acontecimentos que nos fazem mergulhar no absurdo da existência. O absurdo é a ausência de sentido. É o momento da vida em que a alma se sente penetrada e transpassada por uma dor lancinante

-Grandes pedras, grandes pedras. Grandes aprendizados, grandes flores

-Eu ainda prefiro o abraço solidário, o silêncio que nos permite proximidade e o comprometimento com a dor que me toca

-Não tenho receio de afirmar que o específico das religiões não consiste em responder as perguntas, mas em nos ensinar a conviver com elas

-Não importa que haja um corpo encontrado ou um corpo desaparecido. O que a ressurreição nos sugere é muito mais que um corpo material. O mais importante, e o que verdadeiramente pode mover o cristianismo no tempo, não está na prova material da ressurreição, mesmo porque não a temos. O que possuímos é o fato de que os discípulos nunca mais foram os mesmos depois da vida, morte e ressurreição de Jesus

-Jurgen Moltmann (teólogo alemão): “A esperança cristã é sempre operante, porque nos mobiliza a atualizar no tempo a presença do esperado”

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-Podemos saborear a espera. Ao socorrer os necessitados, podemos antecipar a volta de Jesus. Ao consolar o coração de uma mulher que perdeu um filho, e com ela sendo solidários, podemos dar início ao processo de sua cura

-Celebrar o mistério eucarístico é deitar a toalha branca sobre o altar do coração humano, reconhecendo nele a dor que precisa ser redimida, e elevá-lo, em prece, aos céus. É a ausência humana sendo curada através da presença comprometida, movida por uma esperança operante, que encontra motivos para continuar na celebração sacramental que nasceu da ausência sentida

-Cresci acreditando e, sobretudo, experimentando na carne que o amor é um recurso que nos faz eternos. Só ele é capaz de nos livrar da morte definitiva, do esquecimento absoluto, porque nos reveste de memória, que será celebrada cada vez que formos recordados

-Estamos cada vez mais inaptos para os vínculos duradouros. O que parece prevalecer é o desejo incontido de paixões avassaladoras, sentimentos à flor da pele, novidades constantes

-A paixão sobrevive de pressas, o amor, de demoras. A paixão é um fogo alimentado pelo álcool. Queima rápido. O amor parece ser fogo a lenha. Tem ritmo diferenciado.

-O amor é o maior de todos os artesanatos. Não amamos da noite para o dia. Amor é construção que requer empenho, assim como a trama dos teares requer demora na escolha das linhas e das cores

-Gosto de compreender o amor como eleição. Alguém que até então estava perdido no meio da multidão foi eleito. Tornou-se sagrado, saiu do contexto que era de todos e agora desfruta de um horizonte particular

-Amar é partir. É rumar nas venturas que nos proporcionarão encontros e crescimentos

-O amor não pode ser experimentado fora da dor. Aliás, ando pensando que a dor só tem sentido se estiver costurada na bainha do amor. O que nos faz querer ficar ao lado, ouvir o sopro do navio e aceitar os desafios da nova viagem é a certeza de termos sido eleitos. Amados e amantes comprometidos pelas mesmas causas, resolvidos a querer a vida com todas as suas exigências

-É, meu caro amigo, também tenho procurado não morrer. Tenho diante dos olhos que há sempre um modo de encontrar alguém que necessite do meu amor

-Carrego em mim um ofício que reconheço santo. Estabelecer as pontas da corda. Ser homem religioso, no mais profundo do termo. Viver para unir, para religar, congregar, para restaurar o que está danificado. Nestes tempos líquidos, ousar ser um lugar de segurança. Por meio de um gesto solidário, uma palavra bendita, uma celebração restauradora

-Ser esperado é certeza de ser amado. Saber que há alguém preparando a nossa chegada faz-nos acreditar no amor. Recorda-se das palavras do teólogo Jurgen Moltman? A espera é operante…

-Vejo as mulheres nos pontos de ônibus com suas sacolas plásticas fartas de realidades que desconheço e intuo: a felicidade anda embrulhada de diversos modos. Segue na simplicidade de um litro de leite, ovos que serão preparados ao som bonito de violas tristes, rádio de pilha sobre a geladeira branca, crepitar de chamas em tarde incendiada por motivos breves, mas felizes. O amor acontecendo como pode, onde alguém o consentiu. O amor em sua cena comum, capaz de sobreviver de bordados simples, sem muitos detalhes rebuscados

-O bom artista sobrevive de ausências, pois nelas estão as futuras criações. O mesmo podemos dizer do amor. O amante nunca esgota a criatura amada, porque o esgotamento representaria o término do amor. O amor sobrevive do que sabemos, mas sobretudo do que ainda não sabemos. É a prevalência do mistério, da sacralidade, que nos faz continuar elegendo o outro como lugar e causa de nossa celebração

-Mário Quintana. É com ele que me despeço: Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarzinho

-Piaget diz que o reconhecimento do não saber é o primeiro passo para a construção de um conhecimento sólido

-Há uma beleza insondável no verbo “entender”. Há uma riqueza fascinante sugerida no conceito. Entender é entrar na tenda. É penetrar o significado. Eu entendo à medida que entro na tenda com você. Eu o compreendo melhor quando faço o exercício de entrar no seu mundo. Entro pra ver a coerência de suas verdades. Entro para desvelar os motivos que geram o seu jeito de ser e de agir. Nisso consiste a grande força de Jesus. Ele entrava na tenda daqueles que dele se aproximavam. Fez assim com Pedro, com João, com Zaqueu. Não ficou do lado de fora, no lugar confortável de onde costumamos fazer o julgamento do mundo, mas assumiu o risco de tocar a história que estava diante dos seus olhos. Esse entendimento lhe proporcionava autoridade. Ele conhecia o coração de seus amigos. Sabia das possibilidades, mas sabia também dos limites. Gosto de identificar isso em Jesus. Ele encorajava as pessoas a se mostrar em sua verdade mais crua, e por isso não havia motivos para falsidades e hipocrisias. Ele provocava a verdade dos outros, estimulava o contato com a fragilidade, mas de um jeito novo

-Não estamos acostumados a encontrar misericórdia. Os verdadeiros amantes estão escassos nos dias de hoje. Faltam pessoas que queiram entrar na tenda de nossa vida. Que queiram conhecer a lógica de nossas ações, os motivos de nossas incoerências. Não querem entrar porque não querem se comprometer

-Nem sempre temos disposição de sair de nosso lugar para encontrar o outro e suas fragilidades. É mais fácil simplificar a questão, eliminar, jogar fora aquele que não corresponde às nossas expectativas

-Ao querer a pessoa Ideal perco a oportunidade de encontrar a pessoa certa

-O fracasso só será definitivo para aqueles que o compreenderem como ponto final da obra. É melhor encará-lo como reticências…

-Resolver a contradição não é possível. O que podemos é descobrir a criatividade que a contradição nos sugere. É nesse momento que nascem as grandes personalidades. Pessoas que, diante do calvário pessoal, reinventam a vida e, por isso, entram para a história e se transformam em referenciais humanos. Pessoas sofridas são sempre muito interessantes, porque trazem na alma a conseqüência da contradição

-A cruz, o grande símbolo do cristianismo, é o encontro de dois traços. Um vertical e outro horizontal. Podemos fazer uma leitura muito interessante dessa simbologia. O calvário é o lugar onde dor e esperança se encontram. No extremo da dor é possível enxergar o plantio de alegrias futuras. A vida é dialética, sempre. Força e fraqueza constituem os dois traços da cruz. Ela é congruência de duas linhas. A horizontal nos lembra a condição humana. Fragilidade que não pode ser negada. Grito de dor em tarde ensolarada, quando a população inteira subia as ladeiras da velha Jerusalém para acompanhar de perto o fracasso humano de Jesus. A linha horizontal é metáfora do destino de sofrer na carne a finitude, desdobramento de um processo encarnatório que não foi aparente, mas pleno

-Shakespeare teve uma bonita intuição ao dizer que o ser humano é “essência de vidro”. Essa metáfora nos remete à necessidade do cuidado. Quebramos com facilidade. O certo é que, quanto mais estivermos irmanados, mais estaremos fortalecidos. A consistência da fragilidade que nos constitui torna-nos ainda mais necessitados uns dos outros

-Adélia Prado: “Eu não tenho tempo algum, porque ser feliz me consome”

-Meu amigo, a experiência humana é sempre desafiadora. Trabalho com os bastidores da humanidade. Vejo e escuto o que as pessoas não costumam revelar

-Nossa alegria só é suportável para as pessoas que verdadeiramente nos amam

-Costumamos dizer que reconhecemos os verdadeiros amigos no momento de nossos sofrimento, mas não é verdade. Os verdadeiros amigos são aqueles que suportam a duração de nossa alegria. O sofrimento é uma realidade que nos congrega com mais profundidade

-A dor que dói no outro é uma janela de onde eu me enxergo. É como se por um instante fosse quebrada a nossa capacidade de diferenciação. O outro sou eu. Não posso vê-lo sofrer sem nele identificar minha inegável condição de fragilidade

-Não houve tempo para perguntas porque o amor é atitude que dispensa explicações

-Ultimamente tenho encontrado pessoas que não se fixam ao seu lugar. Projetam, criam, modificam, inovam e depois querem partir. Não nasceram para as realidades definitivas, porque enxergam nelas a aceitação da morte. Vivem em deslocamentos. Estão sempre abertas às novidades e nunca dizem que não vão se adaptar. Por um lado, pode parecer falta de comprometimento com a realidade, mas por outro não. Pode ser que seja apenas o desejo de manter por mais tempo a força da juventude

-Victor Frankl: “Se você tem um porquê, então poderá suportar todos os comos”

-Já perdi muito nesta vida, e não sei se tenho disposição para perder ainda mais. Fico aqui, esperando o que virá, com a cara cheia de susto. Olhos arregalados, coração batendo na boca, encantado com a vida, assustado com a morte. Fico aqui. Quando posso, vou. Mas quando não vou, dou um jeito de aprender a ficar. Eu me agarro as esperanças. Elas são muitas. Elas são tantas! Estão por todos os lados, mas costumam estar adormecidas. O segredo é gritar por elas. A esperança tem sono leve

-Eu só sei que amo verdadeiramente depois de ter esbarrado nas imperfeições do outro, depois de ter conhecido sua pior faceta e mesmo assim continuar reconhecendo-a como parte a que não posso renunciar. Só o amor me faz conviver com o precário da vida, com a indigência humana

-A fé e a razão. Fé que lhe proporciona a aventura de ser como um menino levado pela mão e, ao mesmo tempo, um adulto que acredita porque sabe duvidar

-Tão importante quanto crer é saber duvidar. A construção da fé passa o tempo todo pelo caminho da dúvida. É bonito, é salutar. Por isso teologia e filosofia são caminhos que se cruzam. Da mesma forma como a filosofia carece de perguntas para avançar, a teologia precisa de questionamentos para ser aperfeiçoada

-Quer matar a poesia? É só considerar que ela já foi totalmente dita. Quer matar o dogma? É só considerar que ele já foi totalmente compreendido

-Só o olhar de quem nos ama pode nos encorajar a sermos nós mesmos. Olhares amorosos são olhares de devolução. Eles nos permitem mostrar a fragilidade sem que haja a imposição da vergonha

-Lindolf Bell: “Menor que meu sonho não posso ser”

-Ivan Lins: “O amor tem feito coisa que até mesmo Deus duvida. Já curou desenganados. Já fechou tantas feridas. O amor junta os pedaços, quando um coração se quebra. Mesmo que seja de aço, mesmo que seja de pedra.”

-Eu só peço a Deus que não me falte sabedoria na hora do medo. É preciso saber administrar o medo sentido, para que ele não antecipe o meu tempo de morrer

-O pensamento e a reflexão são os grandes responsáveis pelas superações que protagonizamos

-Só a reflexão nos devolve o poder de retroceder no tempo. Só ela nos faz lançar luzes sobre o vivido. Só ela nos faz chegar ao aprendizado que nos qualifica como pessoas

-Sigamos. Esquecendo e recordando. Vencendo nos que podemos. Perdendo do jeito certo! Sempre

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