Como a Viradouro foi campeã homenageando Ciça, vivíssimo e Mestre de Bateria, resolvi fazer um post de “Homenagem a quem partiu mais cedo”, este “Homenagem a quem não partiu”.
Daniel
O ano era 1999 e minha vida se resumia a Colégio – na época Centro Educacional Menino Jesus. Faziam dois anos que o prédio novo havia sido inaugurado, e o antigo Curso Elementar dava lugar a um colégio mais robusto.
Lá estudei de 1996 a 2004 e tive grandes momentos – um deles foi a amizade com Daniel.
Daniel veio de uma família do sul de minas, mais precisamente de Itajubá. Terra esta que deu muitos frutos ao mundo, como grandes amigos como ele e até Padre Léo. O pai vinha da Engenharia na famosa UNIFEI.
Ele estudava a tarde e passou para manhã lá pela 2a Série, e compomos juntos parte da turma da 2a Série B de 1999.
Não lembro exatamente como começou a amizade, se chutasse algo chutaria que ambos eram aficcionados nos Beatles, mas além disso pois ele era definitivamente uma criança diferente – mais inteligente, mais interessada, e ao mesmo tempo um cara muito legal e bom aluno. Exemplifico:
Daniel curtia Bob Dylan, gostava de ler tirinhas da Mafalda, curtia um seriado de comédia menos infantil do que as crianças viam até então, tipo Simpsons ou Malcom in the Middle e um tempinho depois algo que virou nosso xodó: Family Guy (Uma Família da Pesada) – que ia contra tudo e todos, para nosso deleite. E eu simplesmente peguei carona neste universo. Tudo fazia sentido.
Uma das grandes influências que ele teve, certamente foi seu pai: Paulo César. Seu apartamento tinha um “cantinho” dele com uma poltrona, discos na parede – que nunca vou esquecer: Milton Nascimento; Beatles; Clube da Esquina; Joan Baez; Dylan; MPB4 e tantas outras coisas muito boas que eu ouço desde aquela época até hoje! Parecia uma confirmação de que algumas músicas e artistas que minha mãe e tios curtiam eram realmente bons, e ao mesmo tempo uma maneira de descobrir novos artistas. O próprio Paulo me confidenciou recentemente que liguei de lá para minha mãe falando: “Eles tem um CD incrível da Janis Joplin!”, ou algo do tipo. Eu ficava fascinado.
Sendo assim, daquela casa não poderia vir coisa diferente de muita leitura, boa música, e sinceramente fugir do “banal” no que tange o belo, o bem feito. Lembro dele denunciando a ruindade que se escondia na música de “Tati quebra barraco” na época – algo para ele impossível de apreciar, independente dos modismos. E aqui me recordo de Thoreau em Walden: “A maioria dos homens leva uma vida de desespero silencioso. Por que se resignar a isso?”.
Por essas e outras, meu nível de “nerd infantil” era relativamente alto. Um dos primeiros livros que quis comprar por conta própria foi “As 100 Maiores Personalidades da História”, além de “Toda Mafalda”, que guardo até hoje. Não que isso me afastasse de ser uma criança daquele tempo, que amava Malhação, Harry Potter e Charlie Brown Jr., mas Daniel me puxava pra cima. No natal de 2001, pedi e ganhei um CD da Joan Baez.
O engraçado era que parecia um mundo onde praticamente só nós vivíamos. Imagine chamar outros colegas pra botar “Joan Baez” cantando Dylan ou algo do tipo? Que coisa sem graça! Mas com ele, eu me achava.
Passávamos horas conversando – às vezes um dormia na casa do outro. Esses tempos achamos antigas Fitas VHS (aquelas fitinhas menores) que gravávamos no quarto, normalmente um teatro ou algo criativo. Lembro que nossos últimos anos no CEMJ foram muito chatos, numa sala que tinha apenas 2 professores – enquanto outras salas tinham 1 por matéria. Foi absurdamente entediante, e quem sabe esse lado criativo aflorava de certa forma através dessas fitinhas e brincadeiras.
Fomos juntos ao Colégio Catarinense, só os dois novatos numa sala de gente que já estudava junta a tempos. No primeiro dia confundimos o horário de intervalo e nos atrasamos, lembro até hoje. Nos adaptamos ao CC de forma tranquila após um tempo, e logo notamos que não mais estávamos no nosso mini-universo de um colégio menor.
Anos e anos passados, cada um seguiu seu rumo no fim do Ensino Médio e na faculdade. Ele formou em Direito, hoje é um juiz e com certeza será um dos melhores pois sempre foi muito competente. Não poderia esperar algo diferente dele que não fosse extraordinário
Agradeço a ele ter entrado em minha história lá no começo e ajudado a me moldar para melhor. Acredito muito que somos a média das pessoas que convivemos, e torço muito que minha filha ache uma amizade como esta para que a desafie a ser mais, querer mais, estudar mais, ser mais dedicada, interessada, amante da boa música, da poesia, do belo e não do banal.
Valeu Daniel!

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